O vírus da hepatite C (VHC) pode ser detectado no canal nasal e nas palhinhas que se introduzem no nariz, de acordo com um artigo publicado na edição de Outubro da revista Clinical Infectious Diseases. As conclusões fundamentam a hipótese de que a hepatite C pode ser transmissível pela partilha de palhinhas ou notas que são usadas para snifar drogas.

A teoria da transmissão da hepatite C por esta via baseia-se no facto de que a prática frequente e a longo prazo de snifar drogas, nomeadamente cocaína, pode provocar dano e sangramento do canal nasal. As palhinhas e as notas que são introduzidas no nariz podem entrar em contacto com sangue ou muco infectado com o vírus da hepatite C (VHC), que pode então ser transmitido a alguém que partilhe a mesma palhinha.

Nos últimos anos tem havido rumores de surtos de hepatite C entre homossexuais seropositivos na Europa. Embora exista uma crescente evidência que esta infecção está associada a práticas sexuais, incluindo o fisting, o uso de brinquedos sexuais ou o sexo em grupo, alguns estudos têm também sugerido que snifar drogas pode contribuir para a transmissão.

Ao mesmo tempo, em alguns países, cerca de um quarto das infecções por VHC continuam por explicar, sendo que os indivíduos não referem práticas de risco, tais como partilha de material de injecção.

Um certo número de estudos epidemiológicos realizados em grandes grupos de pessoas seronegativas para o VIH (tipicamente, dadores de sangue ou utilizadores de drogas sem práticas de injecção) encontraram uma associação entre snifar drogas e a infecção pelo VHC. Mas nem todos os estudos reportaram esta conclusão e tem havido algum criticismo quanto à qualidade metodológica destes estudos.

Contudo, até à data, nenhum estudo tinha examinado a plausibilidade virológica de que partilha de material para snifar pudesse contribuir para a transmissão da hepatite. Assim, investigadores de Nova York recrutaram numa clínica de bairro 38 adultos infectados pelo VHC, que snifavam drogas.

Os testes realizados incluíram:

Esfregaços nasais destinados a testar a presença de VHC no sangue e no canal nasal

Cada participante inalou ar através de palhinhas de plástico, que foram posteriormente analisadas para determinar a presença de VHC ou de sangue

O exame do canal nasal para detecção de doença

Nestes testes foi utilizado o mesmo tipo de tecnologia do teste de medicação da carga viral – RNA do vírus da hepatite C.

Um terço dos participantes estava co-infectado com VIH e 45% tinha hepatite B. A carga viral da hepatite C variava de forma alargada no grupo, com um média de 5.000 cópias/ml. A prova de função hepática alanina aminotransferase (ALT) indicava algum grau de dano, com um valor médio de 47 UI/l.

Os investigadores detectaram a presença de VHC em 13% dos esfregaços nasais e em 5% das palhinhas usadas para snifar.

A presença de sangue foi detectada com mais frequência do que o vírus da hepatite C. Contudo a presença ou a ausência de sangue não era um factor preditivo para a presença deste vírus. Por exemplo, nos cinco esfregaços que eram positivos para hepatite, apenas em dois deles foram encontrados vestígios de sangue.

As doenças e os danos no canal nasal podem aumentar o risco de transmissão da hepatite. Entre outros problemas, mais de quatro dos dez participantes que apresentavam corrimento nasal, referiram ter este sintoma pelo menos uma vez por semana. A taxa de inflamação da membrana nasal era elevada (71%), enquanto que a taxa de inflamação sinusal era normal.

Sabe-se que o vírus da hepatite C pode permanecer infeccioso fora do organismo até 16 horas. Contudo, os autores reconhecem que pouco se sabe sobre a quantidade de vírus necessária para a transmissão. Sugerem que, quando se snifam drogas existe uma grande saída de fluídos nasais e de sangue e que a quantidade de vírus pode ser grande.

Os autores acreditam que a conclusão mais significativa é a de que a hepatite C pode ser transferida para o equipamento utilizado para snifar. Assim, recomendam a realização de mais estudos que confirmem esta via de transmissão, assim como a respectiva contribuição para a transmissão da hepatite C.
Tradução
GAT – Grupo Português de Activistas sobre Tratamentos VIH/SIDA
(www.gatportugal.org)

Fonte: Aaron S et al. Intranasal transmission of hepatitis C virus: virological and clinical evidence. Clinical Infectious Diseases 47: 931-934, 2008

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