O estigma relacionado com o VIH está associado ao acesso reduzido aos cuidados médicos especializados para o VIH, relatam investigadores norte-americanos num estudo publicado na edição online do Journal of General Internal Medicine. O estudo demonstra também que uma grande parte das pessoas seropositivas apresenta uma noção de estigma muito interiorizada.

“O nosso estudo fornece informações importantes sobre a associação entre o estigma interiorizado e o auto-relato sobre o acesso aos cuidados médicos”, comentam os investigadores.

Houve melhorias drásticas no que diz respeito ao tratamento do VIH, graças às quais o prognóstico de muitas pessoas infectadas é agora considerado normal.

No entanto, o VIH continua a ser uma doença estigmatizante e este factor ameaça a saúde emocional, mental e física dos indivíduos infectados.

O estigma é um conceito complexo, mas é geralmente aceite que está enraizado nos desvios verificados em relação aos valores e às normas sociais de uma comunidade. O estigma interiorizado pode desenvolver-se caso um indivíduo aceite tais normas da sociedade, mas se desvie delas.

Os investigadores de Los Angeles sugerem que o estigma interiorizado estará associado a três aspectos-chave do tratamento do VIH:

O acesso auto-relatado aos cuidados de saúde relacionados com o VIH

Ter acesso regular aos cuidados de saúde relacionados com o VIH

Adesão ao tratamento anti-retroviral

Um total de 202 indivíduos foi recrutado para a investigação, a partir de clínicas e serviços de apoio, em Los Angeles. A investigação foi levada a cabo em 2007.

A maioria dos participantes (56%) era composta por mulheres e houve uma proporção igual de Afro-americanas. A idade média situou-se nos 43 anos e 31% eram homossexuais masculinos.

O estigma interiorizado foi avaliado usando um questionário que contabilizava as respostas individuais numa escala de 0 a 100. A pontuação geral foi 41, sugerindo que mais de um terço dos participantes tinham um estigma interiorizado associado ao VIH.

Em geral, 77% dos indivíduos relataram ter dificuldades de acesso aos cuidados de saúde, sendo que 11% não tinham cuidados regulares e 43% relataram fraca adesão aos tratamentos para o VIH.

O primeiro conjunto de análises estatísticas dos investigadores mostrou que os indivíduos que relataram um alto nível de estigma interiorizado eram, provavelmente, aqueles que relatavam falta de acesso aos tratamentos do VIH (Probabilidades de rácio [OR] = 4,97; 95% CI, 2,54-9,72), falta de uma fonte regular de cuidados de VIH (OR = 2,48, 95% CI, 1,00-6,19) e baixos níveis de adesão ao tratamento anti-retroviral (OR = 2,45, 95% CI, 1,23-4,91).

Contudo, quando os investigadores ajustaram os resultados tendo em conta possíveis factores de confusão, verificaram que o estigma interiorizado apenas subsistia significantemente associado ao acesso precário ao tratamento do VIH (ajustado OR = 4,42, 95% CI, 1,88-10,37). Também estabelecerem que a saúde mental precária, ao invés do estigma interiorizado por si só, explicava a adesão subóptima ao tratamento do VIH.

“Aproximadamente um terço dos participantes relatou ter experimentado altos níveis de estigma interiorizado”, comentam os investigadores, acrescentando “descobrimos que os inquiridos que relataram altos níveis de estigma tinham quatro vezes mais probabilidades de ter acesso precário ao tratamento.”

Os investigadores notaram que o seu estudo estava limitado pelo seu desenho transversal e que novos estudos prospectivos são necessários para determinar melhor a relação entre estigma e o acesso ao tratamento para o VIH. “Tais estudos possibilitar-nos-iam analisar as mudanças no estigma e a sua contribuição para os cuidados de saúde e os resultados durante a trajectória da doença”, concluem os investigadores.

Referência
Sayles JN et al. The association of stigma with self-reported access to medical care and antiretroviral therapy adherence in persons living with HIV/AIDS. J Gen Intern Med (online edition), 2009.
Fonte: Aidsmap.com
Endereço web: http://www.aidsmap.com/pt/

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