De acordo com o relatório de uma investigação conduzida na Holanda publicado na edição de Novembro da revista AIDS, certas manifestações específicas de estigma relacionadas com o VIH são melhores indicadores de distúrbios psicológicos em pessoas que vivem com a infecção. Entre elas incluem-se as dificuldades sentidas com os técnicos de saúde e a falta de franqueza no seio familiar, mas também a excessiva bondade por parte de membros da família.

“Os nossos resultados sugerem que, em determinados contextos, algumas manifestações específicas de estigma são psicologicamente mais prejudiciais do que outras”, comentam os investigadores.

Existe material de investigação em quantidade suficiente que comprova que o estigma relacionado com o VIH é causador de distúrbios psicológicos em pessoas infectadas e afectadas pelo VIH. Contudo, até agora, não existia nenhuma investigação que tivesse estudado de que forma determinadas manifestações estigmatizantes, em contextos específicos, afectam o estado psicológico das pessoas que vivem com VIH.

Assim, em 2007, investigadores holandeses conduziram um estudo transversal (ou ” snap-shot”) que envolveu 669 doentes seropositivos para a infecção pelo VIH. Estes doentes tinham uma idade média de 47 anos e um nível de escolaridade elevado, dos quais perto de 50% possuíam uma licenciatura. A maioria (80%) era homossexual, 68% tinha emprego e 48% tinha um parceiro.

Os participantes do estudo responderam a um questionário para determinar as manifestações de estigma relacionadas com o VIH que mais se associavam aos distúrbios psicológicos, em seis contextos específicos (amigos, família, serviços de saúde, parceiro, trabalho e lazer).

No questionário foram incluídas ao todo onze manifestações (aconselhamento para ocultar a infecção pelo VIH ou para não a divulgar, culpa, agravamento do distanciamento físico, higiene excessiva, indiferença, exclusão, incapacidade para interagir socialmente, generosidade exagerada e agressão).

As manifestações estigmatizantes demonstradas por parte de amigos mais associadas ao sofrimento eram o embaraço e a bondade excessiva.

Ser aconselhado a esconder o seu estatuto serológico, evitar falar sobre a infecção e a bondade excessiva estavam associados ao sofrimento, quando oriundas por parte dos membros da família. Nos serviços de saúde a noção de estigma era especialmente perturbadora se envolvesse indiferença ou dificultasse a interacção social. Finalmente, o aconselhamento para esconder a infecção e a generosidade excessiva causavam desconforto quando experienciados no contexto de um relacionamento.

Os investigadores realizaram uma análise estatística para efectuar o controlo de potenciais factores de perturbação.

Esta análise demonstrou que apenas quatro manifestações de estigma permaneceram significativamente associadas às perturbações psicológicas.

Três destas manifestações eram vividas em meio familiar; esconder o estatuto serológico (p <0,01), evitar falar sobre a infecção (p <0,01) e ser alvo de exagerada bondade (p <0,05).

A última manifestação significativa associada a perturbações psicológicas foi a interacção social difícil no contexto dos serviços de saúde (p <0,05).

“A estigmatização por parte da família pode ser particularmente prejudicial uma vez que estas não são escolhidas e são, muitas vezes, consideradas uma importante fonte de amor incondicional e de apoio”, escrevem os investigadores ao sugerir que sentir-se estigmatizado por parte da própria família pode ameaçar a tão humana e fundamental ”necessidade de fazer parte de algo”.

Como se espera que os profissionais de saúde tenham conhecimentos sobre o VIH, os investigadores afirmam que as acções estigmatizantes por parte destes profissionais são especialmente desapontantes e prejudiciais para as pessoas que vivem com VIH.

Referência
Stutterheim SE et al. HIV-related stigma and psychological distress: the harmful effects of specific stigma manifestations in various social settings. AIDS 23: 2353-57, 2009.

Tradução
GAT – Grupo Português de Activista sobre Tratamentos VIH/SIDA
Fonte: Aidsmap.com
Endereço web: http://www.aidsmap.com/

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