A promoção do uso do preservativo a 100% pode não ser a melhor estratégia de prevenção do VIH em casais serodiscordantes, de acordo com uma investigação apresentada na 5a Conferência da Associação Britânica para o VIH. Todavia, os investigadores descobriram que existe falta de conhecimento ou de uso de outros métodos de prevenção do VIH, tais como a profilaxia pós-exposição (PPE) ou o impacto da carga viral na infecciosidade.

Os investigadores recrutaram 38 casais serodiscordantes (no quais um dos parceiros é seropositivo para o VIH e o outro é seronegativo) para um estudo prospectivo com a duração de três anos. A maioria (30) dos casais era homossexual. Para serem incluídos no estudo, os casais tinham de ter uma relação pelo menos há dois anos e ter tido pelo menos 20 episódios separados de sexo anal ou vaginal desprotegido nos últimos doze meses.

Os casais foram inquiridos relativamente aos seus conhecimentos sobre questões como a PPE, a carga viral e infecciosidade, e as razões para terem tido sexo desprotegido. Os investigadores colocaram três hipóteses sobre os factores subjacentes ao sexo desprotegido nas suas relações: falta de compreensão dos mecanismos de transmissão do VIH; razões emocionais; e uma preocupação baixa em relação às consequências da transmissão do VIH.

Havia pouca consciência da disponibilidade da PPE, um período menor de toma da terapêutica anti-retroviral após a exposição ao VIH como forma de prevenção da infecção. Somente 16% dos parceiros seronegativos para o VIH e 32% dos parceiros seropositivos sabiam da sua disponibilidade. Só um dos casais reportou ter usado a PPE. Uma das mulheres seropositivas mostrou alguma relutância em relação ao valor da PPE, afirmando aos investigadores que a frequência com que ela e o parceiro tinham sexo desprotegido significaria que “ele teria de tomá-la todas as semanas.”

Não havia um conhecimento do impacto da carga viral na infecciosidade.

Contudo, os casais afirmaram ter usado algumas estratégias para tentar reduzir a transmissão do VIH. Nos casais homossexuais, o que incluía a possibilidade de o parceiro seronegativo praticar sexo insertivo, a maioria dos homens seropositivos declaram nunca ejacular dentro do parceiro quando tinham sexo desprotegido.

Mas foram também utilizadas estratégias de redução de risco não comprovadas. Um dos homens afirmou acreditar que a masturbação alguns dias antes do sexo desprotegido limpava a infecção do VIH do sémen; outro indivíduo disse aos investigadores que pensava que a transmissão não era possível se ele tivesse a contagem de CD4 alta.

De forma geral, o parceiro seropositivo estava mais preocupado com o risco de transmissão que o seronegativo. As razões emocionais foram um factor chave, com os indivíduos a afirmar que a intimidade e confiança eram razões importantes para ter sexo desprotegido. Porém, uma mulher africana disse que na sua relação e cultura não era possível uma mulher recusar sexo ao seu marido.

O descontentamento pelos preservativos foi outra das razões mais utilizadas para o sexo desprotegido. Outros declararam que o preservativo causava disfunção eréctil ou eram um aviso que o VIH estava presente na relação. Mas alguns casais disseram aos investigadores que nunca tinham discutido as razões para o não uso do preservativo.

Os parceiros seronegativos eram mais positivos que os seropositivos em relação às consequências da transmissão do VIH. Um dos homens seronegativos afirmou “mais cedo ou mais tarde surgirá uma cura.” Também não haveria uma culpabilização da transmissão, segundo os participantes seronegativos do estudo. Um dos indivíduos seronegativos disse aos investigadores, “aborrecê-lo-ia mais a ele que a mim”, tendo o seu parceiro afirmado, “se ele ficasse seropositivo por minha casa, não sei como lidaria com isso”.

Os investigadores também encontraram evidências que os parceiros seronegativos se sentiam isolados e inseguros acerca do lugar onde poderiam discutir as suas experiências com indivíduos sem situações semelhantes.

“Uma mensagem geral de sexo seguro parece ser inapropriada para todos os casais serodiscordantes”, comentaram os investigadores, “a promoção de uma discussão aberta do risco e da identificação de barreiras aos uso do preservativo pode ser mais eficaz que a abordagem do uso de preservativo a 100%” Os investigadores sugeriram que a declaração feita por médicos suíços no início de 2008 pode ser uma das abordagens possíveis. Esta afirmava que em certas circunstâncias, indivíduos sob terapêutica anti-retroviral com carga viral indetectável não são infecciosos para os seus parceiros.

Todavia, uma investigação adicional apresentada na conferência por investigadores da unidade de lavagem de esperma do Hospital Chelsea e Westminster, em Londres, demonstrou que 10% dos homens com carga viral indetectável tinham uma carga viral “significativa” no seu esperma. Quando desafiados para definir “significativa”, os investigadores afirmatram que isso significava que o VIH podia ser detectado, mas não lhes foi possível afirmar se estava presentes em quantidades potencialmente infecciosas do vírus.

Referência
Fox J et al. Understanding of HIV-risk behaviour in HIV-serodiscordant couples – a novel approach. Fifteenth Annual Conference of the British HIV Association, abstract P149, Liverpool, 2009.

Nicopoullous JDM et al. A decade of the sperm-washing progam: the effect of HIV on semen parameters and viral load? Fifteenth Annual Conference of the British HIV Association, abstract o8, Liverpool, 2009.

Fonte: aidsmap
Endereço web: http://www.aidsmap.com

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