Quem procura o CheckpointLx no número 2 da Travessa do Monte do Carmo, em Lisboa, facilmente o encontra.

A fachada foi revestida por uma fotografia com dois homens de tronco nu e sem face. A entrada é cuidada e a sensação é a de se estar a entrar num Spa. Tudo está alinhado e disposto de forma harmoniosa.

No CheckpointLx, todos se cumprimentam com dois beijinhos, o ambiente é informal e não há barulhos, apenas o som sumido de um rádio que toca o novo hit dos Maroon Five “I want to move like Jagger”.

O CheckpointLx foi criado para servir uma população muito bem definida, os HSH, ou seja, homens que fazem sexo com homens. “A escolha da população alvo prende-se com o facto de ser um grupo onde o número de casos VIH+ continua a aumentar em Portugal. Além disso, a oferta existente, em termos de rastreio, não consegue responder de forma eficaz às especificidades deste grupo”, explica a médica e responsável científica do CheckpointLx, Maria José Campos.

Para o coordenador de equipa, João Brito, a população de HSH “é particularmente vulnerável, não por ter mais comportamentos de risco, mas porque o círculo onde se movimenta é significativamente menor.”
Outra particularidade deste centro é que é o “primeiro projecto que funciona entre pares”, isto é, os técnicos que fazem os testes e o acompanhamento são também eles HSH.

Para Maria José Campos, “quando alguém aparece para fazer o teste no hospital, as equipas médicas não estão preparadas, não sabem que perguntas fazer, como abordar a questão. Simplesmente não foram educados para esta situação.” O psicólogo e membro da equipa, Ricardo Fuertes, acrescenta “mais do que uma dificuldade profissional, trata-se de uma dificuldade pessoal, que aqui no Checkpoint não se coloca”.

A vontade de chegar a cada vez mais pessoas, e o mais precocemente possível, é um dos objectivos do projecto. Para isso contam com pessoal que trabalha no campo e que tem levado a cabo iniciativas de divulgação. Algumas destas estratégias de proximidade decorreram no Verão na Praia 19 e também durante outras iniciativas como o Queer – Festival de Cinema ou o Arraial Pride, ambos em Lisboa.

Desde que estão abertos já foram feitos alguns testes a pessoas que não se inserem na população alvo. “Apesar de não fecharmos as portas a pessoas que não são HSH, há diferenças entre os serviços prestados”, explica João Brito. Enquanto no caso dos HSH o atendimento pode ser feito com ou sem marcação prévia, no caso de mulheres, ou homens que sejam heterossexuais, o teste é feito sempre sem marcação, mediante a disponibilidade dos técnicos.

A outra grande diferença prende-se com o protocolo assinado em conjunto com a Consulta de Infecciologia do Hospital dos Capuchos, segundo o qual o encaminhamento só pode ser efectuado para os casos VIH+ da população alvo e não nos restantes casos.

Os primeiros números do Checkpoint

Segundo o primeiro relatório do CheckpointLX, 70 por cento dos testes foram feitos em cidadãos portugueses e 30 por cento em estrangeiros. A média da idade é 31 anos e cerca de 4 por cento dos testados declararam ser trabalhadores do sexo. A vasta maioria das pessoas (82 por cento) que se deslocaram ao centro já tinham pelo menos uma experiência anterior de teste.

O teste consiste numa simples picada no dedo para que uma gota de sangue seja recolhida. Depois, há que esperar cerca de 30 minutos até se saber a resposta. Este é o tempo necessário para que o teste mostre se há reactividade (presença de anticorpos para o VIH) ou não (ausência do VIH). “Durante essa meia hora há tempo para uma conversa com os técnicos, e quase sempre a pessoa passa o tempo todo a afirmar que o teste será reactivo. É normalmente um momento de ansiedade”, comenta João Brito.

Os números do CheckpointLX revelam que não é isso que acontece na grande maioria dos casos. Dos 680 testes efectuados, 30 foram reactivos. Destes, 23 casos foram encaminhados para a consulta de Infecciologia, sendo que 13 optaram pelo acompanhamento da equipa do CheckpointLX. “Os outros 10, representam os casos em que há um bom suporte emocional, amigos e família que os acompanham”, acrescenta Ricardo Fuertes.

Estes números foram tornados públicos na celebração dos seis meses de actividade do Checkpoint, no passado mês de Novembro, durante a qual se realizou uma recolha de donativos. O projecto Checkpoint é financiado em 80 por cento pela Coordenação Nacional para a infecção VIH/SIDA (CNSIDA) e Alto Comissariado da Saúde (ACS), ao abrigo do programa ADIS-SIDA, e em 20 por cento pelo GAT. Com recurso a candidaturas, o CheckpointLX conseguiu ainda financiamento através de empresas farmacêuticas, privados e de uma fundação (MAC Aids Foundation).

Em que ponto estamos e para onde caminhamos?

De acordo com os dados avançados pelo relatório anual da ONU para a SIDA (ONUSIDA) sobre Portugal, a prevalência da doença, isto é, o número de pessoas que vivem com a infecção pelo VIH, é de 0,6%. Esta prevalência é apenas superada pela da Estónia (1,2%) e pela da Letónia (0,7%). No mapa da Europa Ocidental, Portugal aparece a vermelho, como o país com a mais alta prevalência da Europa Ocidental e Central.

Dois estudos independentes (o Previh e o EMIS), realizados durante 2010, mostram que em Portugal as populações de homens que fazem sexo com outros homens (HSH) e dos trabalhadores do sexo (TS). apresentam uma epidemia concentrada. Esta designação é usada quando há mais de 5% de pessoas a viverem com VIH dentro de uma população. No caso dos HSH, os valores apontam para 7-9% e no caso dos TS a estimativa fica acima dos 5%. Uma vez mais, qualquer um destes números é muito mais grave do que aquilo que está a acontecer nos outros países da Europa Ocidental.
Uma das consequências imediatas destes números é que, de acordo com dados do Infarmed, Portugal é o país Europeu que mais gasta, por habitante, em medicamentos para o tratamento da infecção pelo VIH. Em 2003 gastaram-se 43 milhões e passados 6 anos, o valor aumentou para cerca de 250 milhões de euros.

As estimativas actuais apontam para que 23-25 mil pessoas estejam a receber tratamento em Portugal, mas se considerarmos o valor da prevalência da doença (0,6%), chegamos ao número de 50-60 mil pessoas infectadas. Estes números indicam que, nos próximos anos, Portugal terá ainda mais pessoas infectadas a recorrer a medicação nos hospitais Portugueses.

Com a diminuição da mortalidade e o acesso à terapêutica antirretroviral, que torna a infecção por VIH numa doença crónica, o que estes números nos dizem é que as boas notícias trazem grandes desafios para o orçamento do SNS. O futuro poderá passar por uma optimização do SNS e uma redução dos custos dos medicamentos e meios auxiliares de diagnóstico. No final de 2011, em declarações à Antena1, o presidente do Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida, Miguel Oliveira da Silva, defendeu que Portugal deve deixar de respeitar as patentes da indústria farmacêutica caso a falta de dinheiro comprometa o tratamento dos doentes. O Brasil já seguiu uma política semelhante ao copiar/produzir medicamentos patenteados, por forma a reduzir custos.

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